Na 6ª feira passada estava a fazer zapping e deparei com o programa do Nicolau Breyner, "Nico à Noite". Nunca tinha visto, mas estava por lá o Medina Carreira que, num tom algo diferente da amargura habitual, dava uma entrevista mais pessoal e por aí fiquei. Seguiu-se um tal de Dr. Nuno Nina, compadre do Nicolau Breyner e licenciado em medicina bioquímica. A coisa cheirou-me a esturro, mas esperei para ver.
A entrevista só confirmou a minha primeira impressão. Tanto a medicina, como a bioquímica são coisas sérias e muito respeitáveis e até estão ligadas profundamente, mas não conhecia nenhuma licenciatura que juntasse as duas no nome e pareceu-me a estratégia típica dos vendedores de banha-da-cobra, que consiste em usar uma linguagem sofisticada e pseudo-técnica.
Umas investigações na net à posteriori, sobre o tal Dr. Nuno Nina permitiram-me concluir que a sua pretensa licenciatura não é reconhecida em Portugal (e provavelmente em lado nenhum!) e que a sua medicina é recheada, como seria de esperar, de outros epítetos: Electromedicina; quântica; energética; integrativa; informacional.
Tudo coisas lindas e impressionantes, com o único problema de não quererem dizer nada de relevante e de misturarem conceitos que fazem sentido em determinados contextos, mas são completamente disparatados noutros.
Tudo o que é quântico está na moda, desde as pulseirinhas à homeopatia. Se se diz que a ciência não explica e quando não há quaisquer evidências de sucesso que se distingam do efeito placebo, em testes sérios e com as regras que se utilizam universalmente para validar qualquer terapia, então de certeza que há uma misteriosa explicação quântica à espera de ser usada.
Falarei disto mais vezes, pois a Física Quântica é uma coisa séria e de grande importância e com presença no nosso dia a dia, mas aqui o essencial da mensagem que pretendo passar é que isto é perigoso e não sei porque é que as autoridades de saúde não impedem estas coisas. Pelo que vi nessas pesquisas que fiz, num programa do Goucha há uns anos, o tal Dr. Nina ia mais longe e exemplificava que ao reequilibrar o Sódio e o Potássio das células, repunha os níveis energéticos do organismo (a energia também faz sempre parte do vernáculo da banha-da-cobra, assim como o holístico) e tratava tudo com as suas maquinetas
star wars, desde a dor de cabeça, à osteoporose, culminando com a oncologia. E, claro, para ser credível estavam lá doentes ou ex-doentes, assim tipo IURD, que, descrentes na medicina convencional, se entregavam à medicina informacional, com todos os riscos inerentes a querer tratar-se o cancro com feitiçaria.
Pelo que vi pelas imagens da suposta clínica, a coisa deve render bem. Ao menos a homeopatia é um pouco mais benigna, pois normalmente não se afoita tanto deixando as patologias mais agrestes entregues à medicina “convencional”. É que os seus comprimidos de açúcar e xaropes de água não geram tanto impacto no equilíbrio das energias, como as potentes máquinas EMDR da medicina integrativa!
Nada disto se distingue dos efeitos de placebos, conforme comprovam muitos testes por esse mundo fora e na verdade, as ditas “medicinas alternativas”, são alternativas porque não são medicina. Aqui fica uma reportagem, na TV Australiana sobre a homeopatia. Depois é só generalizar para outras banhas-da-cobra, como esta do Dr. Nuno Nina.