Aproximo-me de casa, já noite feita. Não entro, fico cá fora. Está tudo muito sereno. Corre uma leve brisa, suficiente para fazer girar o aerogerador, mas sem força que leve as pás a fazerem-se ouvir. Na penumbra vislumbro vultos. Deixo adaptar a retina e já consigo perceber que são as ameixoeiras, as macieiras, um pouco mais despidas, e os sobreiros, bastante mais imponentes. Contorcem-se numa dança. Uma dança muito suave, pois a brisa não as deixa expressarem-se como estão habituadas. As árvores do Oeste estão habituadas a coreografias violentas, mas hoje não!
Uma miríade de sons modela uma paisagem sonora. Nesta orquestra telúrica, a coruja faz de barítono, os sapos – muitos sapos mesmo –, assumem uma preponderância de tenor. Vêm de várias direcções, como os grilos, que também não deixam distinguir de onde se manifestam. Cães, ouvem-se também vários e, apesar de mais longínquos, é fácil perceber as origens. Não há muitos sons femininos nesta construção sonora, mas ao longe, ainda consigo distinguir um meio-soprano. Parece-me uma cotovia. Enfim, não sei se é uma cotovia; não sei mesmo se sei como é o som da cotovia. Mas quando os meus filhos eram bebés cantava-lhes uma canção –“…ao luar, canta a cotovia…”.
Está um belo luar, logo é uma cotovia… Sim, está mesmo um belo luar! Não está céu limpo, as nuvens são até bem elaboradas, mas há muito céu livre, que deixa a descoberto uma estrondosa lua em quarto crescente. Esta, já a caminho da lua cheia, enche-se de brios e vai brilhando como se já lá tivesse chegado. Vaidosa, esta lua! Tão perto, que mesmo sem luz própria, se sobrepõe às fornalhas nucleares das estrelas e não lhes dá muitas oportunidades de se deixarem ver. Mas de vez em quando, as nuvens densas abafam-lhe o esplendor e aí, olhando para o lado oposto do horizonte, consigo ver muitas estrelas. Uns minutos a adaptar o olhar e já são muitas centenas. Talvez até Milhares. Apesar de tudo não é das noites melhores para se ver a Via Láctea em todo o seu esplendor, mas o que se vê já é deslumbrante.
Espiritualidade é isto! É esta a transcendência que o Cosmos nos oferece. É fácil pensarmos num criador! É difícil pensar que não houve criador! Mas… será mesmo?